Edição de Vídeo: A história do ofício do corte.

Nosso cérebro não consegue memorizar todas as nossas vivências, com todos os detalhes ou a ordem exata de vários fatos ao longo da vida, por isso se eu te pedir para pensar na sua história de vida até aqui, sua mente irá começar a tentar organizar as lembranças que guardou num tempo, espaço, detalhes diferentes do que realmente foi, fato é que isso vai definir como você vai se sentir em relação a sua história no final.

Porque eu disse tudo isso?

A edição funciona da mesma maneira! Ela é capaz de pegar uma construção linear de fatos e distorcê-la, realocando os fatos em diferentes ordens a fim de trazer um novo sentimento ou/e sentido para aquilo.

Para compreendermos melhor o presente vamos voltar um pouco no tempo, assim entenderemos também que toda essa evolução se deve a um desejo antigo que foi tomando forma através das eras.

5.000 A.C.

A ideia de contar histórias e representá-las visualmente é antiga, ela começa a mais ou menos 5 mil anos A.C., lá na china com os teatros de sombra, com direito a lenda chinesa e tudo mais, mas vamos avançar um pouco mais na história.

Séc. XVII

O mundo deleitava-se ainda com a projeção de sombras, dessa vez com aparelhos mais sofisticados como: a Lanterna Mágica. Inventada pelo neerlandês Christiaan Huygens.

Também conhecido como epidiascópio, teve seu primeiro registro na história em 1645 por uma sacerdote jesuíta em sua obra Ars Magna Lucis et Umbrae. Este aparelho é munido de um jogo de lentes acopladas a uma câmara escura e também uma luz de uma lâmpada de azeite junto a um condensador, entre a câmara escura e o jogo de lentes era inserido placas de vidros pintadas com desenhos que assim eram projetadas através das lentes para uma superfície clara à frente assim como fazem os projetores modernos.

Algo muito interessante é que ao mover os vidros era possível criar uma ilusão de movimento, junte isso com um narrador que se encarregava de contar uma história enquanto os vidros eram manipulados, e às vezes até músicos, então você tinha um belo entretenimento pra época!

“Vai um pouquinho mais pra esquerda? Ai, perfeito, agora diga: X!”

Tudo bem, tudo isso eram apenas representações artísticas, para entender a história do filme precisamos entender um pouco da história da foto. Então… Quando surgiu a primeira foto? Um registro real, fidedigno para um marco?

Foto tirada por Joseph Nicéphore em Saint-Loup-de-Varennes, na França, mostra a visão por uma janela.

Em 1826 o francês Joseph Nicéphore Niépce lá em Saint-Loup-de-Varennes, na França, posicionava a folha de estanho coberta de betume por oito horas seguidas na frente de uma janela, esse processo demorava muito como você pôde perceber e só permitia que fosse criada uma fotografia por vez, era chamado de heliografia.

1895

A fotografia já havia avançado consideravelmente desde 1826, então dessa vez estamos em 1895 com os irmãos Auguste e Louis Lumière, eles são responsáveis pelo cinematógrafo.

Irmãos Auguste e Louis Lumiere / Cinematógrafo

Fazendo o trabalho completo, este maquinário com pouco menos de 5kg já permitia captar, revelar e projetá-lo numa tela sem a necessidade de energia elétrica. E é graças a todas essas características que o aparelho era prático e versátil para a época, destacando-se então dos demais aparelhos similares que surgiam, levando assim o título de marco zero para o cinema. Sua primeira projeção para o público foi ainda em 1895 com o filme: A chegada do trem na estação, que era… Um trem chegando na estação (rs).


Sabe quem estava nessa plateia? Georges Méliès, ilusionista, o cabeça em muitas das tecnologias e narrativas nos primeiros passos do cinema. Esse cineasta francês que não era bobo nem nada, vê na invenção dos irmãos Lumière uma oportunidade de mostrar seu trabalho, criando assim a sua produtora, a Star Film, em 1896.

As primeiras Manipulações

Em um de seus rotineiros dias gravando em sua produtora (Star Film), a câmera do francês travou enquanto filmava um ônibus, quando voltaram a filmar era um carro fúnebre que estava passando no lugar do ônibus, mas calma, não era a morte do cinema, mas sim só o começo.

Georges percebeu que este peculiar aparelho poderia distorcer o tempo e espaço, e era isso que sua produtora precisava para inventar o CORTE! E não só o corte como também a sobreposição de imagem, o stopmotion, a transição por dissolução (fade-in / fade-out), manipulação gráfica de imagens e até mesmo ilusões de ótica.

Tudo isso era feito a mão e foi assim durante muito tempo que essa pioneira produtora começou: Com tesoura ou uma navalha por exemplo, o editor escolhia e cortava o quadro desejado e depois recombinava juntando-os com fita adesiva. Conforme iam experimentando as diferentes ideias, o caminho que o cinema iria percorrer era cada vez mais claro para aqueles que se aventuravam com as telinhas.

A seguir veremos conceitos, técnicas, regras, tecnologias como os monitores e projetores que ajudavam bastante a cortar / criar os filmes. Tudo isso começou não só a ditar a indústria do cinema, mas também mostrava a importância e o poder do editor para produzir filmes.

1902

Neste ano se você estivesse dando um passeio por Nova York, poderia encontrar Edwin Stanton Porter desenvolvendo os princípios da narrativa e da montagem, juntando o estilo documentalista dos Irmãos Lumiére e o olhar fantasioso de Georges Méliès com o filme Life of an American Fireman, mais tarde consolidado com o nome The Great Train Robbery, que tinha a duração de 11 minutos e já usava planos de diferentes lugares e momentos para com diversos cortes para criar a narrativa, realizações essas também fundamentais para a história do cinema.

David Llewelyn Wark Griffith 1875~1948

O Nº1

David Llewewelyn Wark Griffith ou apenas D. W. Griffith começou sua carreira no cinema em 1908, foi pioneiro no suspense, montagem paralela, movimentos de câmera, close, quando o assunto era a dramatização. De 1908 a 1913 Wark conduziu cerca de 450 curta-metragens e só em 1914 começava a fazer seus longas com a indústria do cinema de Hollywood, trazendo a montagem paralela que consistia em explorar múltiplas linhas de uma ação até o último minuto, a fim de criar um suspense.

David foi considerado por muitas pessoas importantes pro cinema como o diretor mais influente de toda essa história até hoje.

“Quem está aí? […]”

Pensa num segredinho guardado a sete chaves. Eram os editores, normalmente vistos como mão de obra apenas e não como parte fundamental da criação como é hoje em dia, onde os mesmos se tornam parceiros inseparáveis do diretor durante todo o processo.

Durante muito tempo o trabalho do editor era quase invisível, pois eles pensavam assim: Quanto mais imperceptível fosse o corte no vídeo, melhor era o editor, mas o problema nisso tudo é que em contrapartida, menos era visto a importância do coitado cortador de películas.

“[…] Sou eu, Serguei Eisenstein.”

Saindo do comum, Serguei fazia de trabalhos como o de Griffith serem clássicos, por suas propostas originais com cortes que colocavam imagens e ideias em confronto umas com as outras, como no filme O Couraçado de Potemkin. Diferente dos demais, esse cineasta sovietico gostava de fazer com que o público entendesse que estava assistindo um filme, os cortes eram evidentes e ajudavam na narrativa com fervor revolucionário de ideologia marxista onde essas diferentes ideias e imagens expostas criavam um terceiro significado mais relevante.

Moviola – 1926

Como dito anteriormente, o processo de edição era manual e continuava sendo, mas o grande diferencial dessa maquina que fez dela um marco na edição de filmes era a produtividade, qualidade e praticidade que gerava pois auxiliava muito os editores a visualizar o filme que estavam cortando e acharem o melhor ponto para fazê-lo.

“Solta o som editor!”

Em 1926 surgia o primeiro filme com trilha sonora, Don Juan da Warner Bros. Pictures.

Don Juan, 1926 – Warner Bros. Pictures

Isto só foi possível com o Vitaphone que utilizava de uma técnica com marcas físicas no rolo de filme e no disco fonográfico que rodavam por um sistema de motores síncronos.

Vitaphone, 1926 – Western Electric

Adeus Moviola, olá Ilhas de edição!

Até por volta da década de 70 a popular moiola era o principal aparelho de edição usado no mundo, mas acabaram dando lugar as ilhas de edição que ao inves de peliculas usava a fita magnetica para a edição.

O processo era basicamente igual ao feito nas películas, você escolhia o ponto de corte e depois juntava com o seguinte, mas agora não era mais necessário cortá-la fisicamente! O lado bom é que isso garantia uma melhor qualidade e precisão nos cortes, enquanto o lado ruim é que o editor ficava preso a uma edição linear, pois, ele controlava numa mesa a fita original e também a fita a ser editada, e só então começava os processos de seleção e cortes da fita original que seriam passadas para a fita virgem, que também era gravado linearmente na outra fita.

Foi só com a chegada dos computadores que nós podemos ver a edição como é hoje, não linear, pois estes softwares podem fazer tudo o que era feito antes de forma manual e muito mais, sempre armazenando na memoria as decisões tomadas, que podem ser replicadas para dar origem a uma outra versão e assim por diante. 

Perspectivas Cinematográficas: Principais Planos do Audiovisual

Um bom enquadramento passa sensações de maneira imperceptível para o observador. Entendendo como essas sensações foram transmitidas, torna-se possível reproduzi-las em qualquer outra cena. O enquadramento é o que chamaríamos, dentro das artes plásticas, de perspectiva. É a escolha do artista de como mostrar a cena ao observador, como, por exemplo, fez Diego Velázquez em sua obra mais notória “As Meninas”.

As Meninas (1656), Diego Velázquez

Nessa pintura, é importante notar que o próprio Velázquez explorou a questão de perspectiva, colocando-se como personagem à esquerda da tela. Isso não foi somente uma maneira aleatória que ele decidiu pintar, a perspectiva vai muito além disso. Nessa obra, ela mostra como as pessoas eram colocadas diante da nobreza dentro desse contexto histórico. 

Seria essa a primeira Selfie em grupo da história ou apenas uma pintura que também mostra o backstage? Por essas e outras dúvidas cruéis que essa obra tornou-se uma das mais enigmáticas da história.

No cinema e na fotografia, isso não é diferente. O enquadramento é algo tão importante dentro do audiovisual justamente porque ele mostra não somente uma cena, mas todas as questões que circundam ela, como relacionamentos entre as personagens ou sentimentos. Existem diversas técnicas de enquadramento que podem ser aplicadas, como as seguintes.

Principais planos do cinema

  • Plano Geral (very long shot) P/G
  • Plano Médio (long shot) P/M
  • Plano Americano (mid shot) P/A
  • Primeiro Plano (close-up) P/P  
  • Primeiríssimo Plano (big close-up) Pº/P
  • Plano Detalhe (extra-big close-up) P/D
  • Plano Inicial (Stock Shot)
  • Plano Seqüência

Entenda todos os planos de gravação audiovisual

Plano Geral

O Plano Geral é um panorama da cena, contextualiza a situação da personagem. Geralmente esse enquadramento isola a figura em uma paisagem ampla para demonstrar a importância dela nesse ambiente.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), dir. Glauber Rocha

No filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, por exemplo, o plano geral é usado para mostrar Corisco diante da vastidão do sertão. Apesar de algo extremamente importante estar acontecendo atrás, somos levados pelo enquadramento a ignorar a situação e enxergar o cangaceiro como uma figura messiânica, mesmo estando longe disso.

Plano Médio

O plano médio é uma visão aproximada do assunto. O foco deixa de ser o contraste da figura com o ambiente e se torna a relação entre eles.

Essa cena do filme Trainspotting (1996), por exemplo, ainda mostra um pouco do ambiente, porém o foco é levantar questões sobre as personagens e quem elas são.

Plano Americano

Mostrando as pessoas do joelho para cima, esse plano costuma dar ênfase às relações entre duas ou mais personagens. Mesmo com alguma participação do ambiente, esse enquadramento se aproxima mais do campo das expressões.

La Haine (1995), dir. Mathieu Kassovitz

O filme “O Ódio” (em francês “La Haine”) usa o Plano Americano para mostrar o relacionamento entre os três amigos protagonistas. Além de dar ênfase às suas expressões perante à marginalização sendo imigrantes suburbanos.

Primeiro Plano

Também conhecido como close-up é um enquadramento clássico usado para expressividade. Ele foca no rosto das personagens e nos deixa a par dos sentimentos delas através das expressões destacadas.

La Haine (1995), dir. Mathieu Kassovitz

Novamente em La Haine, o foco na expressão expõe o ódio que o protagonista deseja demonstrar à sociedade. O primeiro plano é ideal para a mensagem que o diretor quer passar com a cena.

Primeiríssimo Plano

O primeiríssimo plano é o enquadramento que mais mostra a expressão das personagens. Usado para chocar, ele enfoca algum elemento do tema, como por exemplo a mão sangrenta de Travis em Taxi Driver ou a peixeira que cria uma divisória no rosto de Corisco em Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Taxi Driver (1976), dir. Martin Scorsese

Aqui, Scorsese quer chocar a plateia mostrando a transformação de Travis, que está no ápice da sua “jornada do anti-herói”. Para isso, ele aplica o enquadramento que mais traz proximidade à expressão do personagem.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), dir. Glauber Rocha

No caso de Corisco, Glauber Rocha quer explorar a dualidade do personagem. Usando a própria arma de Corisco como divisória, ele consegue colocar em contraste o homem que era e o homem que a perseguição o tornou.

Plano Detalhe

Esse plano é usado para enfatizar coisas essenciais à trama que podem passar despercebidas, além de causar impacto visual e emocional ao espectador.

Taxi Driver (1976), dir. Martin Scorsese

Nessa cena do filme Taxi Driver (1979) de Martin Scorsese, o detalhe é o espelho retrovisor do carro com o olhar de Travis. O espelho é a principal maneira que um motorista de táxi enxerga seus passageiros, assim sendo o único meio de contato que Travis tem com a vida daquelas pessoas. Dando enfoque a um olhar que poderia passar despercebido, porém que é extremamente representativo da transformação do personagem durante a trama.

Plano Inicial

O plano inicial é usado para situar o público sobre a ambientação do filme. Também pode ser considerado um plano de passagem quando a ambientação muda, como por exemplo em uma viagem da personagem.

O Iluminado (1980), dir. Stanley Kubrick

No caso de O Iluminado, o filme começa com um plano inicial do Fusca andando pelas montanhas do Colorado. Assim, os espectadores já estão situados da ambientação da trama antes mesmo de conhecer as personagens.

2001: uma odisséia no espaço (1968), dir. Stanley Kubrick

Em 2001: Uma Odisséia no Espaço, Kubrick utiliza-se da mesma técnica de enquadramento para deixar o espectador a par da ambientação.

Plano Sequência

O plano sequência ocorre em takes longos, nos quais o plano muda sem cortes conforme a cena acontece. Existem diversos métodos de filmagem para trazer qualidade a um plano sequência, o mais famoso sendo o estabilizador “Steadicam”.

Para exemplificá-lo, há a cena no Copacabana Place em “Os Bons Companheiros” de Scorsese. Com pouco mais de 3 minutos, a cena mantém-se dinâmica e interessante mesmo tendo sido feita em apenas um take.

Aprenda e pratique os enquadramentos clássicos do cinema em casa!

Para produzir vídeos de qualidade, o enquadramento é um fator importantíssimo, portanto vale a pena refletir qual o melhor modo de enquadrar para passar as sensações desejadas à sua audiência. 

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