O Marido da Gisele: Como as mulheres são retratadas pela mídia

Não é difícil encontrar manchetes nas quais as mulheres são apenas um apêndice do homem que as acompanha, porém a situação contrária é rara. Esse pode ser um fator cooperante com o estranhamento causado pelo título desse artigo. Como um bom brasileiro, já deve estar acostumado com o fato do Tom Brady ser somente o Giselo. Entretanto, se você é um fanático por futebol americano, é provável que tenha ficado indignado com minha redução do Tom Brady à sua esposa. Um pouco frustrante, né? Isso ocorre porque você considera o papel profissional dele mais importante do que o familiar, porém para muitas profissionais mulheres isso é o contrário. A mídia tradicional muitas vezes reduz mulheres em suas manchetes à esposas, filhas e diversos outros papéis que atrelam-se a um homem considerado mais “relevante”.

Com a chegada do dia internacional da mulher, é importante fazer essa reflexão constante de como retratamos mulheres nos diversos tipos de mídias, desde dentro do jornalismo, às suas personagens em novelas, comerciais ou diversos outros meios. Nesse artigo, falaremos sobre os principais estereótipos femininos retratados nas telas.

O Dia Internacional da Mulher

Antes de adentrar mais profundamente o assunto, é importante entender o contexto histórico no qual o dia 8 de Março foi escolhido para homenagear mulheres ao redor do globo. 

Contexto histórico

A partir de uma origem operária, o Dia Internacional da Mulher foi marcado por diversos ocorridos e manifestações nessa época. Traçando uma linha do tempo, um dos primeiros “dias das mulheres” foi em 26 de Fevereiro de 1909 em Nova York. Aproximadamente 15 mil mulheres se uniram em uma passeata para marchar pelas ruas da cidade lutando por melhores condições trabalhistas. As jornadas de trabalho da época chegavam até 16h por dia, durante seis dias semanais, não raramente, incluindo domingos. Essa é considerada a primeira celebração do “Dia Nacional da Mulher” estadunidense.

Nos anos seguintes, o movimento feminista operário também aflorou-se pela Europa. No mês de agosto de 1910, uma proletária alemã chamada Clara Zetkin propôs na Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, a criação de uma grande jornada anual conjunta através do mundo de manifestações femininas pela igualdade de direitos.

No ano de 1917, um grupo de operárias saiu às ruas para manifestar-se contra as condições insalubres e precárias de vida que o governo Czarista propunha à sua população, em especial a feminina. Pelo antigo calendário russo, a manifestação teria sido dia 23 de Fevereiro, porém adaptando para o calendário gregoriano adotado em 1918 pelos soviéticos, a data ficou no dia 8 de Março. Esse movimento tornou-se o estopim da revolução russa, com o povo lutando por dignidade e comida. Após a revolução bolchevique, os soviéticos oficializaram a data como uma comemoração da “mulher heróica e trabalhadora”.

Estereótipos femininos na mídia

Manic Pixie Dream Girl

Esse talvez seja o mais comentado dentre as rodas de pseudo-intelectuais, com a expressão criada em 2005, esse tipo de personagem é aquela mulher fofinha e atrapalhada, que vai apresentar as melhores coisas da vida para o real protagonista da trama (o homem). Citando Rita Lee, “Ela é toda boazinha, ela é toda do bem, ela é tão galera, ela é jovem”, essa é a Manic Pixie Dream Girl, a garotinha de franja perfeita e estabanada. Um exemplo disso é a Summer de “500 dias com ela” que, sob a visão infantilizada do Tom, é uma Manic Pixie Dream Girl. E quando ela contraria isso, indo pelas suas vontades próprias, é vista como vilã da história.

Femme Fatale

A femme fatale é uma mulher que utiliza sua sexualidade como arma. O corpo escultural e a personalidade sedutora fazem dela um “sonho de consumo” de muitos homens. Talvez a parte mais interessante dessa personagem seja a auto-percepção de sua sensualidade e, consequentemente, o uso dela para atingir seus objetivos.

Mulher de negócios

É muito comum encontrar em filmes uma mulher de negócios infeliz e amargurada pela frustração de não ter um amor. Em diversos cenários a vida da mulher é retratada como uma eterna busca por um cônjuge e filhos, e quando a personagem tem outro foco, os roteiristas ainda fazem questão de deixá-la infeliz e insatisfeita com sua vida.

O Diabo Veste Prada (2006)

A esposa chata

A esposa estraga-prazeres é outra representação frequente de mulheres em filmes. Um homem de meia idade preso em um casamento infeliz como se fosse responsabilidade da mulher manter o casamento, transformando-a em uma vilã chata. Um exemplo é a noiva patricinha de “Meia-noite em Paris” que é vilanizada pelo protagonista como uma mulher cruel e ele a vítima indefesa.

Owen Wilson e Rachel McAdams em Meia-Noite em Paris (2011)

Mulher Troféu

Um grande exemplo que grita “Mulher Troféu” na nossa cara é a Ramona Flowers de Scott Pilgrim contra o mundo. Todo o enredo do filme baseia-se em desafios que o protagonista deve realizar para “ganhar” a garota. No caso, derrotar os 7 ex-namorados do mal. Além de objetificar a mulher, esse estereótipo mantém ela como uma personagem sem escolhas e vontades próprias, portanto, é extremamente prejudicial, principalmente se exposto a garotas mais jovens.

A donzela em perigo

Esse é um clássico, extremamente antigo, desde os filmes de faroeste antigos, até hoje, o papel de donzela em perigo é extremamente usado no cinema. A cena mais simbólica desse fenômeno é o King Kong no topo do Empire State segurando a “mulherzinha” como refém. O simbolismo desse papel condiz com os estereótipos de gênero, o “sexo frágil” sendo mantido refém pelo grande Kong. 

A mulher cenário

Essa é aquela gostosona de biquini passando na festa e deixando os nerdolas de queixo caído em Projeto X ou Baywatch. É a mulher das propagandas de cerveja que quase nunca possui uma fala e, se possui, é exclusivamente para interagir com o homem e “provocá-lo” ou fazer com que ele sinta-se desejado. Além disso, elas são extremamente comuns na série Game of Thrones, que ama utilizar mulheres nuas como composição de cenário para seu Mise en Cene machista. 

Baywatch: S.O.S. Malibu (2017)

A Smurfette

Única mulher em um grupo de homens, o estereótipo de Smurfette pode ser encontrado em diversos filmes. É como se a mulher fosse uma cota necessária para dizer que o filme possui diversidade e representatividade. Na maior parte do tempo, a Smurfette faz o papel de mãezona do grupo e coloca juízo na cabeça dessa molecadinha travessa (Não importa se são homens de 40 anos nas costas, a visão infantilizada do gênero masculino ainda permanece. Afinal, eles são apenas meninos, não é mesmo? E essa visão ainda permanece na sociedade, por que não permaneceria na telona?).

The Big Bang Theory (2007)

Lésbica Simbólica

Não poderia deixar de citar a LGBT+ chaveirinho, que muitas vezes é a amiga conselheira do homem, que vai educá-lo sobre como tratar uma mulher. Outras vezes, é simplesmente fetichizada, ou pelos próprios personagens, ou pela própria produção do filme, que realiza a fetichização para o prazer do público. Essa é uma personagem extremamente controversa, pois ao mesmo tempo que traz certa representatividade, não é verdadeira. Ela é somente para o agrado do masculino, um uso figurativo da sexualidade para causar excitação.

Fetichização patriarcal e voyeurismo em Azul é a Cor Mais Quente (2013)

A Mulher na Mídia

Em conclusão, pode-se perceber que ainda temos muito que avançar quando se trata dos estereótipos criados para representar mulheres no cinema. Enquanto homens conseguem personagens sempre únicos e com profundidade, muitas atrizes precisam interpretar esses estereótipos para conseguir chegar até um lugar em suas carreiras que podem escolher papéis melhores e mais profundos.

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