O Exemplo da Índia — Um país que educa para o futuro

A história mostra que momentos históricos de alto desenvolvimento industrial e tecnológico são certamente precedidos por um grande desenvolvimento educacional; são frutos de políticas educacionais bem sucedidas.

O recente desenvolvimento da Índia nas áreas de computação, telecomunicações, farmácia, entre outras não é diferente; é resultado claro de um esforço de democratização ao acesso à educação formal nos últimos 30 anos.

Fachada do Indian Institute of Technology em Kharagpur, Bihar.
Prédio do Indian Institute of Technology em Kharagpur, Bengala Ocidental.

Entretanto, o desenvolvimento educacional do país está longe da plenitude e universalidade; existem grandes discrepâncias entre estados, populações de áreas rurais e urbanas e, principalmente, entre estratos sociais; bastante parecido com o que temos aqui no Brasil, mas com sete a oito vezes mais pessoas (a Índia ainda enfrenta um sério problema de registro dos indivíduos; em 2000, apenas 56% dos recém-nascidos eram registrados. Nos anos anteriores a isso, a proporção de nascimentos registrados era muito menor. Embora tenha aumentado desde então, mesmo em 2017, pelo menos 15% dos nascimentos não foram registrados. A população é estimada em 1,3bi), em menos da metade do espaço físico.

No início

Durante toda a antiguidade, até o século 19, a Índia (por mais que ainda não a fosse) se desenvolveu tecnologicamente através de um sistema educacional peculiar, chamado Gurukula. Por todo o subcontinente indiano onde se desenvolveu o hinduísmo, as figuras conhecidas como gurus eram os detentores da sabedoria e responsáveis por todas as atividades de ensino dessas sociedades.

Representação artística do pátio de um Gurukul, autor desconhecido.
Representação artística do pátio de um Gurukul, autor desconhecido.

Qualquer pessoa que desejasse estudar ia à casa de um professor (Guru) e pedia para ser ensinada. Se aceita como aluna , a pessoa passava, então, a viver na casa do guru e ajudar em todas as atividades da casa. Isso não apenas criava um forte vínculo entre o professor e o aluno, mas também ensinava ao aluno tudo sobre como administrar uma casa.

O guru ensinava tudo que a criança quisesse aprender, do sânscrito às sagradas escrituras e da matemática à metafísica. O aluno ficava, então o tempo que desejasse ou até que o guru sentisse que havia ensinado tudo o que podia ensinar àquela pessoa.

Tempos modernos

O sistema escolar moderno junto ao ensino obrigatório da língua inglesa foram trazidos para a Índia por Lord Thomas Babington Macaulay, um inglês, na década de 1830. O currículo limitava-se a disciplinas “modernas”, como ciências e matemática, e disciplinas como metafísica e filosofia eram consideradas desnecessárias. O ensino confinado às salas de aula era muito diferente do ensino holístico e naturalista que o povo Hindu conhecia, assim como a relação entre o professor e o aluno criada nos gurukula. Dessa forma, os gurukula sobreviveram em várias regiões até meados do século 20.

Veja o Anexo I, ao final deste artigo, para entender melhor o sistema educacional atual indiano.

Novas políticas educacionais

Após a independência e unificação da Índia, em 1947, a educação universal e obrigatória para todas as crianças na faixa etária de 6 a 14 anos era um sonho do novo governo da República da Índia. Isso é evidenciado pelo fato de que foi incorporada como uma política diretiva no artigo 45 da Constituição.
No final da década de 1980 o país ainda flutuava num mar de subdesenvolvimento socioeconômico, sim. Mas, o barateamento de computadores veio muito a calhar para esse bilhão de pessoas, todas ao menos bilíngues e com extrema afinidade para lógica e matemática, que facilmente se adaptaram às linguagens de programação existentes e logo começaram a desenvolver suas próprias soluções.

A área acadêmica prontamente reconheceu o potencial e começou a buscar recursos junto ao governo e apresentar propostas para a disseminação do ensino das novas tecnologias.

A pressão por crescimento econômico e a aguda escassez de mão de obra qualificada e treinada para tal certamente desempenharam um papel fundamental para que esse passo fosse dado. Entretanto, os gastos do Governo da Índia com educação escolar nos últimos anos ainda representam cerca de 3% do PIB, o que é reconhecido como muito baixo (informação de 2011).

Mas, o objetivo da educação plena da população ainda permanece distante, mais de meio século depois da independência. No entanto, no passado recente, o governo parece ter tomado nota desse lapso e fez da educação primária um direito fundamental de todo cidadão indiano, em 2010.

Alunos do 11º e 12º ciclo da educação básica em aula de informática da escola secundária na vila de Ramanagaram, a 60 km de Bangalore.
Imagem obtida em de www.wimklerkx.nl sob licença Creative Commons. Os direitos autorais permanecem com o autor: Wim Klerkx, mail@wimklerkx.nl IT63-7: (Ramanagaram, estado de Karnataka, Índia, 7 de agosto de 2001)

Na imagem ao lado, alunos do 11º e 12º ciclo da educação básica em aula de informática da escola secundária na vila de Ramanagaram, a 60 km de Bangalore. A sala de informática foi equipada em março de 2001, durante um projeto no o qual o estado de Karnataka equipou 1000 escolas secundárias com salas de informática.

Enfim, desenvolvimento

No início dos anos 90, o governo também percebeu que o investimento em infraestrutura para desenvolvimento de uma indústria de software era mínimo comparado àquele necessário para o desenvolvimento de indústrias de manufatura, uma vez que a Índia tinha de sobra a “matéria-prima” para o desenvolvimento de software: cérebros!

Assim, o governo deu o incentivo organizacional e financeiro para a formação de hubs de desenvolvimento de tecnologia em locais onde já havia uma grande concentração de instituições públicas de ensino superior e também órgãos de defesa do governo nacional — notoriamente, Bangalore, Chennai, Hyderabad, Mumbai, Nova Delhi e Pune.

Durante os anos 90 e início dos anos 2000, várias iniciativas trouxeram o ensino de Tecnologia da Informação para o currículo do ensino básico, agora quase universal no país, com uso predominante de ferramentas de Software Livre no ensino — ver Anexo I.

Juntamos todos os fatores e chegamos ao presente: a cultura anciã de aprendizado, o vasto capital humano e o oportunismo crucial da esfera pública criaram um gigante.

Assim nasceu uma indústria primariamente de exportação que fatura US$74 bilhões ao ano, além de US$31 bilhões ao ano em prestação de serviços de tecnologia (dados de 2018); cerca de dois terços do faturamento do setor de tecnologia é derivado de exportações.


Anexo I — O sistema escolar atual

A Índia está dividida em 28 estados e 7 os chamados “Territórios da União”. Desde 1976, a educação entrou na chamada “lista concorrente”; ou seja, políticas e programas de educação escolar são sugeridos a nível nacional, embora os governos estaduais tenham muita liberdade para implementar seus próprios programas.

Escolas estaduais

Cada estado do país tem seu próprio Departamento de Educação que administra seu próprio sistema escolar com seus próprios livros didáticos e sistema de avaliação. O currículo, a pedagogia e o método de avaliação são amplamente decididos pelo no estado, entretanto, devem seguir as diretrizes nacionais. Todos os alunos do país têm que aprender três línguas: hindi, inglês, e sua língua materna, exceto nas regiões onde o hindi é a língua materna; frequentemente as aulas são ministradas de forma alternada em todos os idiomas.

O caso de Kerala

O estado de Kerala, um pequeno estado na costa sudoeste da Índia, tem se diferenciado do resto do país em muitos aspectos nas últimas décadas. Tem, por exemplo, a maior taxa de alfabetização entre todos os estados e foi declarado o primeiro estado plenamente alfabetizado do país em 1991.

O estado foi o primeiro no país a passar de uma forma comportamentalista de ensino tradicional para um paradigma social construtivista. Foi mencionado no National Curriculum Framework do NCERT no ano 2000, e Kerala começou a experimentá-lo no ano seguinte. A transação em sala de aula e a metodologia de avaliação foram alteradas.

Em vez de perguntas diretas que só poderiam ser respondidas através da memorização das aulas, perguntas indiretas e perguntas abertas foram incluídas para que o aluno precisasse pensar antes de responder, e as respostas pudessem ser subjetivas até certo ponto. Isso significava que os alunos teriam que digerir o que estudaram e deveriam ser capazes de usar seu conhecimento em uma situação específica para responder às perguntas.

Ao mesmo tempo, o novo método tirou muita pressão e as crianças começaram a achar os exames interessantes e agradáveis ​​ao invés de estressantes. Juntamente com isso, foi introduzido um sistema de Avaliação Abrangente e Contínua, que levava em consideração a personalidade geral do aluno e reduzia a dependência de um único exame final para decidir a promoção para a classe seguinte. Atualmente, essa estratégia foi adotada em âmbito nacional.

Kerala também foi o primeiro estado do país a introduzir a Tecnologia da Informação como matéria de estudo no Ensino Médio, em 2002. Foi iniciado no oitavo ano, com a introdução de um livro didático apresentando o Microsoft Windows e o Microsoft Office. Mas, dentro de um ano, o governo foi forçado a incluir o Software Livre no currículo por protestos de entusiastas do Software Livre e uma posição favorável tomada por uma associação de professores de escolas que tinha a maioria dos professores do governo como seus membros.

Saiba mais sobre as possibilidades e importância do uso de Software Livre em plataformas de desenvolvimento de websites neste artigo.

Eventualmente, a partir de 2007, apenas GNU/Linux passou a ser ensinado nas escolas, e todos os computadores nas escolas tinham apenas GNU/Linux instalado. Naquela época, talvez até hoje, essa era a maior instalação de GNU/Linux em escolas, e virou manchete até em outros países. Todos os anos, de 2007 em diante, cerca de 500.000 crianças saem das escolas aprendendo os conceitos por trás do Software Livre e do sistema operacional GNU/Linux e aplicativos.

O estado agora está se movendo em direção à educação habilitada para TI. Eventualmente, TI não será ensinada como uma disciplina separada. Em vez disso, todas as disciplinas serão ministradas com o auxílio da TI para que as crianças, por um lado, aprendam habilidades em TI e, por outro, façam uso de aplicativos educacionais (como os mencionados abaixo) e recursos da Internet ( como material textual de sites como Wikipedia, imagens, animações e vídeos) para estudar seus assuntos e fazer exercícios.

A iniciativa de Kerala agora está influenciando outros estados e até mesmo as políticas do governo da Índia. Estados como Karnataka e Gujarat estão agora planejando introduzir o Software Livre em suas escolas, e alguns outros estados como Maharashtra estão avaliando a opção.

A nova política educacional do Governo da Índia fala sobre construtivismo, educação habilitada para TI, Software Livre e compartilhamento de recursos educacionais. Depois que alguns dos maiores estados migrarem com sucesso para o Software Livre, espera-se que todo o país faça o mesmo em um tempo relativamente curto. Quando isso acontecer, a Índia poderá ter a maior base de usuários GNU/Linux e Software Livre do mundo.